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Lançamento: "O Rei do Cheiro"
Meu querido mestre, João Silvério Trevisan, está lançando um novo romance. Sobre o livro, João me escreveu dizendo: "Rei do Cheiro é bem diferente do que já fiz. Aliás, é assim que gosto: começar minha literatura do começo, a cada novo livro. Mas está muito violento, tanto na abordagem temática quanto no desenvolvimento estilístico". João estará autografando o livro em 28 de agosto, sexta-feira, às 20h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (S. Paulo/SP).
Escrito por Lílian Honda às 12h27
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Lançamento: "Teresa, o Mito da Mulher Menina"
Meus caros Cecília França e Pedro Akim Botovchenco lançam hoje seu livro "Teresa, o mito da menina mulher". A sessão de autógrafos será na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Pompéia - Rua Turiassu, 2100, São Paulo (SP), às 19h.
Escrito por Lílian Honda às 13h24
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Oculto

Não importa a máscara: não falando de sexo, outra coisa não faço mais do que falar dele. Esta que vês com a face da cordialidade, me é tão distante quanto a puta que cobra a sua parte em algum ponto da trilha que vai da norma ao desejo. Nos atalhos que ligam umas de mim às outras, há o sexo dos corpos disponíveis, que se vive com limpidez e precisão. Mesmo devasso, é óbvio. E há o outro, esgueirando-se nas palavras, nas entrelinhas e nos silêncios. Tem a violência do obscuro.
Imagem: Kabuki (2003), de Hiroshi Watanabe
Escrito por Lílian Honda às 12h48
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Pudor

És belo e, de tão grande, não percebo-te capaz de delicadezas. Quando perdemo-nos em outros corpos, abaixas-te-me um tanto a saia para cobrir um pouco mais o meu. Amei-te, então, por alguns segundos. Foto: Elena Vasilieva
Escrito por Lílian Honda às 22h02
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Solipsismo Dentro de mim, um forasteiro usa meus velhos chinelos e estranha os próprios pés. Texto: Lílian Honda Imagem: David Hockney, "Pearblossom Highway" (1986)
Escrito por Lílian Honda às 01h54
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Relicário
O que sinto invento da trama das palavras e gestos que velam o castanho cerrado da íris. Duas vezes deste-me teus olhos doces. Só por isso te amei. De resto, o que tive foram rótulos de um veneno de ação corrosiva, teus ex-votos que fui consagrando à desvalida relíquia do amor. Texto: Lílian Honda Imagem: John William Waterhouse, "The Crystal Ball" (1902)
Escrito por Lílian Honda às 00h48
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Maré de sizígia

Atenta ao cerimonial da lua Faço minguar afetos e brandura. Refluxo de mim, vazante d’alma: Rasante na renunciada quadratura.
Escrito por Lílian Honda às 19h40
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Notícias
Por ti, certa vez as palavras viraram corais, velames ao vento, sextantes e sereias.
Tantos anos e, de súbito, jornais atravessam um oceano trazendo-te com os cabelos quase sem cor e mais magro (ou seria ilusão das lentes?). O nome e o rosto dizem sim, mas tu escapas. O concerto das memórias exige que eu invente para ti um desconcerto que te ampare, enquanto tropeças na gravidade solene, nas investigações e ─ merencória ironia ─ nas palavras.
Texto: Lílian Honda Imagem: Quint Buchholz, "Rack Picture" (1882)
Escrito por Lílian Honda às 20h31
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Break-up
O esparadrapo arranca-se feroz e subitamente.
Estilhaços congelados no breu ─ estrelas perversas ─ suspensos sobre o tempo que corre.
[Não olhe agora. Quando o ar frio de alguma manhã invadir as janelas do corpo, só restará a velha fotografia amarelada de um espanto] Texto: Lílian Honda Imagem: John Peto, "Rack Picture" (1882)
Escrito por Lílian Honda às 07h22
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Lápis
Foi um sonho:
um lápis azul abria caminho para fora de meu corpo, perfurando a carne entre as costelas. Foi surgindo de uma dor também azul, precisa e limpa, puxado por uma de minhas mãos ao mesmo tempo em que era empurrado pela outra. Mãe e parteira de palavras não-nascidas. Texto: Lílian Honda Imagem: Mary Cassatt, "A Carta" (1890-91) Nota posterior: ai, como tem gente previsível no mundo. Assim que aprovei o terceiro - e gentil - comentário, a autora veio correndo pedir add no perfil do Orkut. Só faltou dizer "não fui eu, não fui eu". Basta falar no diabo, que ele abana o rabo. E se apagar, Cristina, eu publico de novo, porque tenho a pérola gravada.
Escrito por Lílian Honda às 20h46
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Filigranas
Nunca entendeste essa impossibilidade de arrancar palavras daquilo que em mim necessita das sombras para crescer, embaraçando raízes às vísceras.
Tu podes pensar que tive medo de amar. Mais um engano. O meu amor é uma espécie de delicadeza que morre por excesso de luz e fúria. Amores são precários hoje — e continuam bons e belos como bonecas de porcelana. Mas isso tu sabes melhor do que eu, tantos são os que jazem no aterro sanitário das tuas memórias. Mas o que importa a minha/tua verdade das palavras? A resposta sempre acaba por transformar-se numa colheita única e estéril. Texto: Lílian Honda Imagem: J. Neumark, "Couple 4"(2000)
Escrito por Lílian Honda às 18h46
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O lutador - II
Tenho agora o tempo exato que me cabe, depois de tomá-lo de volta no instante mesmo em que abri mão da juventude que emprestavas-me com a saliva.
O pano de fundo das minhas memórias de ti será sempre o escuro dos nós dos teus dedos, o nó cego do teu punho. Não me coube mostrar-te, lutador: a palma é débil e mansa ao toque. Texto: Lílian Honda Imagem: Kunisaga, "Ichihara (no) Izumi Domaru" (1863) Série: Magic scenes in Kabuki dramas by Toyokuni
Escrito por Lílian Honda às 22h36
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Entrelinhas
queria escrever assim, des-sentindo o que escrevo. mas não des-sinto e nem escrevo e de tanto querer ser na escrita sutileza e fiapos e vestígios, estrangulo as palavras e pago a pena de ressentir sem escrever.
"você escreve muito 'limpinho'", disseram-me certa vez. tão limpo que não marca o papel. tão limpo que disfarça o lodo verde das palavras que se amontoam do lado de dentro, quando o avesso do papel vira lixeira da alma. invejo quem rola pelo penhasco e se rasga e se sente de mal a pior e recolhe seus próprios pedaços e tem raiva e não dorme e procura um sim, e sim, afinal escreve, porque para esses a pena é outra, e termina quando se esgota a tinta.
"eu quero escrever" é meu mantra, repetido à exaustão até que torno a engolir palavras/sentimentos como se murmurasse "voltem para mim", para que o papel não se suje, para que eu não fique nua e desamparada, para que não se exponha de mim nada além da aridez dos gestos contidos e frases polidas que ocultam a agitação clandestina, a inquietação sem nome e sem razão, o parto às avessas.
não sei o que sinto, embora sobrem palavras para dizê-lo: precariedade do tempo suspenso como gatilho puxado, uma eternidade aguda colada ao outro tempo que corre; irmãos acorrentados numa rima pobre siamesa que se agarra à minha pele como unha-de-gato, falsa hera, falsa eu. estou só nas entrelinhas do que nunca escrevi.
Imagem: Mark Ryden, "The Debutante" (1998) Texto: Lílian Honda
Escrito por Lílian Honda às 01h09
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Cores, nomes
Contigo usei palavras como quem queima fósforos. Sei que lembras da
frase que tomei de empréstimo para ti: “a gramática nos impede de sentir a dor
do outro”; e, se existe um deus guardião das palavras, há de ter-me perdoado o
pequeno delito, porque nunca alguém conseguiu ser tão precisa na hora mais
precoce, ainda que travestida de letras que não eram suas.
Nada nos une além de um
punhado de palavras. Tu sabes e eu sei os nomes das cores da luz: violeta, azul,
verde, amarelo, cor-de-laranja e vermelho. Mas um bretão ou um galês têm apenas
glas para tudo o que há entre azul e verde. Outra gente tem apenas um
nome para cada metade daquela paleta. Eis a síntese de tudo o quanto fomos
capazes de perceber um do outro.
Eram vagalumes, não fósforos. E o
que te dizem os vagalumes na noite que há entre nós? Aquilo que escrevi, o
“bastardinho”, como tu o chamas e que guardas no papel amassado dentro
do bolso do jeans, é teu. Só teus olhos o vêem. Nada de mim está ali
porque tu mesmo o inventaste ao ler. Porque as minhas cores têm o nome
das tuas, mas do espectro da luz mal percebemos a sombra.
Imagem: Gountei Sadahide, "Englishman sorting
fabric" (1861). Texto: Lílian Honda
Escrito por Lílian Honda às 21h47
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Prece para o senhor do caos
Delírio e fúria golpeiam as pedras do templo precário onde és a um tempo deus, sumo sacerdote e arquiteto. Assisto ao ritual da tua imolação perene no fogo azul da inquietação sem rosto. Aqueço-me das cores que saltam de ti. Não é fé. Meu desejo é devoto do teu caos.
Imagem: Aaron Bohrod, "Still Life with Rembrandt" (1958) Texto: Lílian Honda
Escrito por Lílian Honda às 10h23
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