ponto, afinal


Filigranas

Nunca entendeste essa impossibilidade de arrancar palavras daquilo que em mim necessita das sombras para crescer, embaraçando raízes às vísceras.

Tu podes pensar que tive medo de amar. Mais um engano. O meu amor é uma espécie de delicadeza que morre por excesso de luz e fúria. 

Amores são precários hoje — e continuam bons e belos como bonecas de porcelana. Mas isso tu sabes melhor do que eu, tantos são os que jazem no aterro sanitário das tuas memórias.

Mas o que importa a minha/tua verdade das palavras? A resposta sempre acaba por transformar-se numa colheita única e estéril.

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: J. Neumark,
"Couple 4"(2000)

 



 Escrito por Lílian Honda às 18h46
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O lutador - II

Tenho agora o tempo exato que me cabe, depois de tomá-lo de volta no instante mesmo em que abri mão da juventude que emprestavas-me com a saliva.

O pano de fundo das minhas memórias de ti será sempre o escuro dos nós dos teus dedos, o nó cego do teu punho.

Não me coube mostrar-te, lutador: a palma é débil e mansa ao toque.

 

 

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: Kunisaga, "Ichihara (no) Izumi Domaru" (1863)
Série: Magic scenes in Kabuki dramas by Toyokuni



 Escrito por Lílian Honda às 22h36
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Entrelinhas

queria escrever assim, des-sentindo o que escrevo. mas não des-sinto e nem escrevo e de tanto querer ser na escrita sutileza e fiapos e vestígios, estrangulo as palavras e pago a pena de ressentir sem escrever.

"você escreve muito 'limpinho'", disseram-me certa vez. tão limpo que não marca o papel. tão limpo que disfarça o lodo verde das palavras que se amontoam do lado de dentro, quando o avesso do papel vira lixeira da alma.
invejo quem rola pelo penhasco e se rasga e se sente de mal a pior e recolhe seus próprios pedaços e tem raiva e não dorme e procura um sim, e sim, afinal escreve, porque para esses a pena é outra, e termina quando se esgota a tinta.

"eu quero escrever" é meu mantra, repetido à exaustão até que torno a engolir palavras/sentimentos como se murmurasse "voltem para mim", para que o papel não se suje, para que eu não fique nua e desamparada, para que não se exponha de mim nada além da aridez dos gestos contidos e frases polidas que ocultam a agitação clandestina, a inquietação sem nome e sem razão, o parto às avessas.

não sei o que sinto, embora sobrem palavras para dizê-lo: precariedade do tempo suspenso como gatilho puxado, uma eternidade aguda colada ao outro tempo que corre; irmãos acorrentados numa rima pobre siamesa que se agarra à minha pele como unha-de-gato, falsa hera, falsa eu. estou só nas entrelinhas do que nunca escrevi.

 Imagem: Mark Ryden, "The Debutante" (1998)
Texto: Lílian Honda



 Escrito por Lílian Honda às 01h09
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Um diário inconstante de minha ternura pelas impossibilidades.

Todos os textos publicados neste blog são de autoria de Lilian Honda, exceto quando indicado o contrário (e, nesses casos, serão dados os devidos créditos ao autor).

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