Contigo usei palavras como quem queima fósforos. Sei que lembras da
frase que tomei de empréstimo para ti: “a gramática nos impede de sentir a dor
do outro”; e, se existe um deus guardião das palavras, há de ter-me perdoado o
pequeno delito, porque nunca alguém conseguiu ser tão precisa na hora mais
precoce, ainda que travestida de letras que não eram suas.
Nada nos une além de um
punhado de palavras. Tu sabes e eu sei os nomes das cores da luz: violeta, azul,
verde, amarelo, cor-de-laranja e vermelho. Mas um bretão ou um galês têm apenas
glas para tudo o que há entre azul e verde. Outra gente tem apenas um
nome para cada metade daquela paleta. Eis a síntese de tudo o quanto fomos
capazes de perceber um do outro.
Eram vagalumes, não fósforos. E o
que te dizem os vagalumes na noite que há entre nós? Aquilo que escrevi, o
“bastardinho”, como tu o chamas e que guardas no papel amassado dentro
do bolso do jeans, é teu. Só teus olhos o vêem. Nada de mim está ali
porque tu mesmo o inventaste ao ler. Porque as minhas cores têm o nome
das tuas, mas do espectro da luz mal percebemos a sombra.
Imagem: Gountei Sadahide, "Englishman sorting
fabric" (1861).
Texto: Lílian Honda