ponto, afinal


O lutador

 

Não é trégua, lutador, esse embate frio e silencioso a que nos entregamos desde que no fundo do olhar gravamos a ferro o rosto um do outro. Jogas sobre a mesa toda a tua fúria travestida de racionalidade. Ou seria a racionalidade impecavelmente alinhavada numa fantasia de violência das palavras? Baixo os olhos e a voz, é bem verdade, e tu dizes: “és doce”. E eu penso que minha força está no vulnerável de mim, precisamente neste medo que invento para arquitetar cuidadosamente meus golpes de silêncio e sorrisos. Tenho quase pena de ti, do peso da tua mão. Tenho quase pena da cordialidade que me é máscara, prisão, distância e salvação. Tenho quase pena do afeto lançado às cordas. Tenho quase pena do desejo, este nosso segredo feroz acuado pelo que só sabemos calar.

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: Tsukioka Yoshitoshi, "Sano Jirōzaemon Murdering a Courtesan" (1886),

Los Angeles County Museum of Art



 Escrito por Lílian Honda às 08h20
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Véu

Não trago comigo a ilusão de que alguém adivinhe um qualquer cintilar em minha existência miúda. Toda vida brota ordinária e caoticamente do mesmo desembaraço com que se ausenta. Os mil véus que protegem minha precariedade são mortalha e abrigo, e o que vela nem sempre é recato: um resto de luz atravessa-me os olhos, alimentando o fogo frio e azul em que ardem meus desassossegos.

Texto: Lílian Honda
Imagem: Klimt, Vida e Morte



 Escrito por Lílian Honda às 09h44
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Um diário inconstante de minha ternura pelas impossibilidades.

Todos os textos publicados neste blog são de autoria de Lilian Honda, exceto quando indicado o contrário (e, nesses casos, serão dados os devidos créditos ao autor).

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