ponto, afinal


Onça

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Henri Rousseau

Surprise!

1891

 

 

Lurdes nem o nome tinha. Nasceu Maria de Lurdes Coelho Sajica, mas o escrivão rabiscou no livro, com menosprezo, "Maria Coelho", e a seguir a expressão que tinha ares de danação: "pai desconhecido", o que não era, mas assim ficou por conta da morte desavisada, que não o deixou chegar a tempo de ir à cidade, tratar dos papéis. Ninguém deu pela falta dos nomes porque ninguém sabia ler.

 

Lurdes, que não era Lurdes, era filha de gente meio índia, mas muito branca, de cabelos claros e avermelhados e grandes olhos redondos, arregalados como se quisessem engolir o mundo. Nasceu na floresta, onde época de seca significa fartura e para comer basta ir até o rio apoucado, que arrebanha os peixes no cercado mais estreito da estação, ou caminhar no mato à procura de açaí, cutitiribá, cupuaçu e outras frutas. Na cheia, era a vez dos peixes conquistarem a floresta submersa. Ainda se podia pescar com uma linha que pendia na falha aberta entre as tábuas do assoalho, já que a casa, agora, estava suspensa sobre o rio. Mas, naqueles dias de água, a família sobrevivia mesmo do que o pai trazia de barco de quando em quando: chibé e camarão miúdo seco, comprado no Ver-o-Peso.

 

"Gente índia é que nem pato, vive na água", conta Lurdes, saudosa dos banhos e brincadeiras no rio com os irmãos, das roupas gastas, mas muito brancas, das vasilhas de barro e alumínio brilhante secando ao sol, da rede onde a mandioca apodrecia mergulhada no sossego do leito para renascer como farinha d'água, e do cheiro do tambaqui assando embrulhado na folha de bananeira. O problema era o desassossego, não por causa da pobreza, que na mata não tem pobreza, mas por causa de uma coisa que não sabia o que era.

 

O pai morreu e o barco com as provisões parou de chegar. Mudaram-se para Belém e aí viraram pobres de vez. Um dia, a mãe deu a Lurdes um par de sapatos, o primeiro que calçava em 14 anos de vida, e foi com a filha bater à porta da prima distante, que não tinha crianças, anunciando: "Tou dando a menina. Já está em idade de fazer o serviço de casa". Alojada no quartinho dos fundos, Lurdes passou a noite vagueando entre o medo e surpresa, encantada com a cama com colchão e cabeceira, que era uma espécie de promessa de mundo novo, mesmo estando cercada por baldes, vassouras, buchas e sabões.

 

continua...



 Escrito por Lílian Honda às 07h38
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continuação do post anterior

Os dias foram seguindo seu curso e Lurdes ocupava-se fazendo brilhar o chão com cera de carnaúba, botando a roupa branca para quarar, polindo as panelas com areia e cinza e tantas outras obrigações que permitiam à prima professora dedicar-se com maior tranqüilidade aos cadernos e às pilhas de provas, que investiam de nova solenidade a enorme mesa de jantar. Quando se via sozinha, a menina folheava os livros e imaginava histórias para as figuras. Olhava o emaranhado de letras e sabia que aquele era um mistério que deveria conhecer. Tocava os lápis timidamente, com veneração de devoto. Um dia, a prima disse, distraidamente, entre um "x" e um "c" que distribuía nas folhas: "Vou dar a você um dinheirinho no fim de cada mês, para que compre doces". Lurdes farejou a oportunidade, tomou coragem e respondeu: "Não quero dinheiro, quero que a senhora me ensine a ler". Olharam-se. Sorriram. O acordo estava selado.

 

Terminado o serviço da casa, Lurdes tomava banho, pegava as moedas com a prima, corria para comprar tacacá num dos tantos tabuleiros que as mulheres armavam nas portas das casas depois da chuva da tarde e voltava com as tigelinhas fumegantes, queimando os dedos e antecipando o melhor do dia: as aulas. Nenhuma ocupação, porém, impediu a menina de perceber os olhares e as tentativas de aproximação do marido da prima. Não teve medo, teve raiva. Pressentiu que o homem colocaria em risco alguma coisa conquistada, a presa entre os dentes. Ficou quieta, esperando. No dia em que ele pôs a mão debaixo de sua saia, entre as suas coxas, a espera transformou-se em fúria. A Lurdes gritou. Despejou palavrões. Arranhou. Mordeu.

 

Devolvida para a mãe feito mercadoria ruim, a menina ouviu calada as queixas da professora sobre o desrespeito para com os mais velhos. Não era hora de falar e nem daria tempo, porque sentiu no rosto o calor da primeira bofetada, acompanhada da fala da mãe, entrecortada pelos tapas: "Alguma coisa de ruim você fez, sua vadia! Vai voltar e aprender a se comportar!". Dor e alívio, foi o que Lurdes sentiu ao ouvir isso.

 

Voltou com a prima. Cruzou com o homem no corredor, que rosnou entredentes a última frase dirigida a ela: "De coelho você não tem nada, sua papa-chibé desgraçada. Parece onça do mato". Não a importunou mais. As aulas estavam a salvo.

 

P.S.: Ganhei um brinquedinho de miriti de um lírio paraense de alvo sorriso e me lembrei deste conto antigo.



 Escrito por Lílian Honda às 07h35
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Lunette

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: Ansel Kiefer,
Brünnhilde Sleeps (1980)
 

 

A realidade é um cinza nítido com que se vai arranhando a paisagem dos dias, enquanto o sonho está no colorido gritante da pequena fotografia que espreito na lunette.

Sonho não se realiza - ou estaria para sempre condenado ao que desbota de tão concreto. Sonhos se guardam assim: ínfimas preciosidades brilhantes e agudas que ferem a sobriedade do tempo.



 Escrito por Lílian Honda às 20h18
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