ponto, afinal


Fazes-me falta

“Chamo-lhe amor para simplificar. Há palavras assim, que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar. O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que meus olhos afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam sei que não votarás a devolver-me os meus.”

 

Texto: Inês Pedrosa

Imagem: Lautrec, "Só" (1896)



 Escrito por Lílian Honda às 23h50
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Trinca

Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranqüilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu, que eu podia ver da poltrona onde estava sentada. A luz do abajur fazia foco no livro aberto sobre o meu colo, que Álvaro me havia dado como presente de aniversário há exatos doze anos. "Então, ele me amou", eu disse para mim mesma, trazendo à luz, ainda que da lua, um pensamento que vagueou unicamente pelos desvãos da razão, levando Álvaro cada vez mais para longe. Até agora, quando este livro caiu em minhas mãos, que o abriram exatamente nesta página, onde leio: "Eu te amo, eu sei que vou...", assim mesmo, incompleto, pedindo às reticências que dissessem o que não foi escrito com os garranchos inconfundíveis, tudo em maiúsculo e, como se não bastasse, em letras graúdas. O que mais eu não vi?

Esta história começa às avessas. Dos descaminhos da memória, Álvaro ressurge para reclamar um epílogo tardio desse enredo de desencontros. Eu e César vivíamos juntos. César e Álvaro trabalhavam juntos. Em pouco tempo, estávamos os três perambulando, inseparáveis e alegres, por bares e cantinas. Ou então Álvaro nos despertava com o som das pedrinhas que jogava na janela do quarto, de madrugada, e eu descia correndo, ainda de camisola, para abrir a porta e vê-lo entrar com o vinho debaixo do braço. Os dois me transformavam em cobaia dos novos drinks que iam inventando juntos. Ou riam da minha pasta ai quattro formaggi, que havia se transformado em uma enorme bola compacta. Eu sempre acabava adormecendo no sofá, enquanto os dois continuavam conversando baixinho ao meu lado, madrugada adentro. Hoje eu gostaria de saber se houve entre Álvaro e César a mesma urdidura de olhares, sorrisos e gestos fortuitos que havia entre mim e Álvaro, quando de qualquer assunto engendrávamos uma interminável conversa entremeada dessas ferramentas do silêncio, que eu não queria ouvir. Um triângulo? Não, uma trinca.

 

(continua/)



 Escrito por Lílian Honda às 20h19
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continuação de

Numa dessas noites festivas, talvez com uma lua como esta, à mesa de uma pizzaria perdida em algum bairro, a trinca firmou-se como uma sociedade em um novo negócio. Parecia perfeito: César abrindo mão de sua carreira na direção de arte para dedicar-se à produção, Álvaro deixando telas e pincéis em segundo plano para ficar com a direção de arte e eu no atendimento, satisfeita por tê-los ao meu lado, fosse sob a luz do luar ou do sol. E foi perfeito por algum tempo. A diversão das noites era tanta que por um tempo derramou-se também sobre o dia. Sempre havia tempo para Álvaro tocar violão para mim. Ou para me fotografar, e às vezes a César. Ou para vasculhar com César os sebos de livros e discos. Ou para me mostrar uma nova série de quadros que estava pintando. Hoje, eu pergunto para a lua das horas tranqüilas: era para mim que ele tocava, ou apenas foi assim que preferi guardar na memória?

 

Trincas. Com o tempo, eu vi César mergulhar nos negócios, passionalmente, pouco a pouco perdendo o interesse por outras coisas. Ouvi seus resmungos transformarem-se em insultos, assim que as pedras batiam na janela. Presenciei pequenas questões de trabalho detonarem discussões cada vez mais ácidas entre os meus dois sócios. Alinhavei precários acordos profissionais entre eles, de duração cada vez menor. Senti o ar tornando-se mais e mais denso. A tensão me atingia, mas as brigas nunca me envolviam. Sempre achei que me poupavam por desvelo, mas talvez isso seja apenas mais uma fraude da memória, e eu simplesmente não fizesse parte daquela disputa surda, em que o que não era dito tinha mais significado do que as desavenças em torno dos negócios. No meio da guerra não declarada entre os dois, eu engravidei. Decidimos, então, César e eu, que seria melhor sair do labirinto. Pedi a Álvaro que deixasse a sociedade e nunca mais o vimos. Não sei se para o meu pesar ou alívio, a criança nunca nasceu.

 

E aqui estou, livro aberto sobre o colo, revirando lembranças e olhando a lua no mais alto do céu. César entra e reclina-se para me beijar a testa.

 

- Você já tinha visto isso? - pergunto, mostrando a página com a dedicatória escrita por Álvaro. Ele sorri discretamente, deixa passar alguns segundos e lança uma pergunta distraída:

 

- Aquela vez... o filho era dele?

 

- Não! Nós nunca... - exclamei, da intersecção entre a perplexidade e a ironia. - Todos esses anos... Por que você não me perguntou isso antes?

 

- Porque não tinha importância... - Silêncio novamente. César dá uns passos, apóia-se na janela e continua falando, com ar desatento: E também porque achei que vocês poderiam me deixar, se eu falasse sobre isso.

 

Minha vez de sorrir, arremessando a minha dúvida: - Você também sente a falta dele?

 

- Não, nunca penso nisso. - diz César, com o olhar preso à lua. Aproximo-me, encosto-me no seu corpo e sussurro em seu ouvido, levemente divertida: - Mentiroso...

 

Fecho o livro e o levo de volta à estante.

 

Conto de Lílian Honda
*O trecho em itálico da primeira frase é de Clarice Lispector

Imagem: Betty, de Gerhard Richter (1988)



 Escrito por Lílian Honda às 20h18
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