ponto, afinal


Frau

Houve um tempo em que o ar era maçã assada, carne de porco com sauerkraut e tomates maduros da barraca que se armava em frente à casa da avó. Por causa dela, suas primeiras palavras não foram na língua da terra, o que contribuiu para solidificar a permanente sensação de estar no filme errado. Sorria ao lembrar da sua ínfima figura, com inegável ar oriental, e aquela mulher redonda, ruiva e sardenta protagonizando curiosas cenas com diálogos em alemão na balbúrdia da feira repleta de "brasileiros", expressão desdenhosa com que a Oma - era assim que a chamavam na família - classificava toda a gente de pele menos branca que a sua.

Nas férias, respirava-se maresia e bronzeador. Dificilmente dividia com a avó seu quinhão de areia, num misto de alívio e culpa por achar constrangedora aquela robusta frau espremida em um maiô preto e antigo que armava dois cones rígidos no peito, vestido xadrez desabotoado por cima, tudo arrematado por uma touca de banho franzida e fofa, daquelas que se usavam no chuveiro. Ironicamente, numa dessas férias na praia recebeu uma aula de pragmatismo na escrita e por toda a vida divertiu-se com a idéia de que o texto que usava na publicidade era herança genética: certa tarde, encontrou sobre a mesa um bilhete dela, primor de concisão e de imediato entendimento por quem estava habituado a ouví-la: "Beche brondo". Os netos banhistas estavam salvos. O aroma não deixava dúvidas: havia peixe pronto no forno.

Pelas mãos da avó, conheceu e passou a amar a cidade. O acontecimento do mês era a ida à Casa Godinho, no centro, onde entrava com a arrogância dos clientes assíduos, falando em alemão com o dono da loja, apoiada em seu sagrado guarda-chuva austríaco com cabo revestido em palhinha, imponente em seus 100 kg embrulhados num tailleur escuro recendendo a guardado e alfazema, lenço de bolinhas no pescoço preso por camafeu e batom nos lábios, numa rara concessão à vaidade. Dava para perceber a raiz forte na festiva atmosfera do armazém, que iria para casa junto com eisbein, semente de papoula e chá inglês. Para a avó, o nome da loja seria Casa Coutinho até o fim. Ignorava as tímidas correções que lhe faziam, do mesmo modo que sempre falaria "a gato" ou "meu neta".

Não sabia dizer com certeza quando Oma envelheceu de vez, porque velha sempre fora, mas de outro tipo de velhice, sem idade definida, vigorosa e cheia de autoridade, que deixava óbvia a obediência que lhe deviam todos e dava-lhe natural direito a exercitar sua franqueza arrasadora e desconcertante. Mas aconteceu de chegar àquela velhice derradeira, que a prendeu na cama pelos últimos dois anos, proibida de comer as coisas de que mais gostava, ouvindo mal, impassível diante das novelas mexicanas e dos programas de auditório, cabelos cortados bem curtinhos, justo ela, que a vida inteira fez questão de mantê-los longos. Naqueles dias, não suportava visitar a avó. Da porta do quarto já podia farejar a morte e seu rastro de remédio e urina.

Oma levou uma semana para morrer, rezando muito alto, em alemão. Depois do enterro, a neta voltou à casa da avó. Alguns tacos soltos gemeram com os passos. As “colegas de trabalho” do programa de auditório não gritavam mais. O silêncio pesou e ela fez funcionar o antigo relógio-cuco. Pegou da mesinha de cabeceira o porta-retratos com a foto do casamento, Oma jovem, alta e robusta, rosto quadrado e boca reta, já deixando ver a matriarca que viria a ser. Entre memórias, distinguiu no ar o perfume do tradicional sabonete de rosas, o único permitido ali, e então viu uma vez mais o ritual da avó prendendo habilmente, com pentes de tartaruga, os fartos cabelos cor de fogo no coque em forma de banana. A casa viajava no tempo, de volta à infância.

Conto de Lílian Honda
Imagem: Matisse, "Harmonia em Vermelho" (1908)



 Escrito por Lílian Honda às 15h53
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Tai chi chuan

Inspiro. Wu dji sz. Senta na calma.
Os movimentos são golpes. Expiro. Concentro-me na almofada e o vermelho toma conta do olhar. Lentamente, lan tcha ue. Avanço à esquerda. "Olha o peso na perna!", pipoca da lembrança a recomendação do mestre. A delicadeza mal oculta a intenção no gesto. Alisa a cauda do pássaro e, agora sim, shao po pipa. Você é o chicote. Não há treino que me prepare para as palavras.
Alheio, Átila entra, afia as garras no tapete e bebe água da fonte artificial. Tsui lo tchiao pu é o meu movimento, mas nada no gato que se espreguiça lembra a "postura do ataque do felino". Átila é irônico por natureza. Tento conter a inquietação. A violência é maior quanto menos se vê. Nas palavras, por exemplo. No desejo.
Tii shao can szi e a garça abre as suas asas devagar. Átila corre. Ele sabe que a garça enfrenta o nada calculando milimetricamente o golpe lento. Os dedos levemente entreabertos, o pulso quebrado no ângulo certo, e a tensão se traveste de sutileza. San shao pipa, corda esticada de violão chinês. Pés sempre firmes no chão e resto flutuando com as memórias. Transformo em gestos precisos a minha violência cinza, mas você é o chicote. Estalam no pensamento as suas palavras mais belas, as mais exatas. Explodem em vermelho as que jamais serão ditas. Pan lan tchiao ue e assim estilizo o gesto de agarrar a cauda do pássaro que não está mais ali. A mão desliza à frente no gesto de defesa. "Dá o passo! Olha o ângulo do pé", grita o mestre do passado. Presa à serenidade em movimento, continuo lutando vagarosamente contra o que não existe. Wu dji tze. Fecho a forma. O silêncio é o supremo último golpe.

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: Poemas de Su Shih (1082)



 Escrito por Lílian Honda às 20h59
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