ponto, afinal


Sobre Hopper

 


Afogada no silêncio e no barulho do mar, era como se toda a vida fosse a força centrípeta daquele instante em que o tempo corria atrás do próprio rabo, sempre pronto para escapar do que o mantinha ali, precariamente preso ao clarão esverdeado da varanda.

Nenhum de nós dois sabia então que o amor era a mariposa que girava ao redor da lâmpada e em breve morreria por excesso de luz. A claridade aprisionada não nos deixava ver que o escuro de fora, tingido da conversa mansa das ondas, era o agasalho feito de tudo aquilo que não parecia existir.

E, se eu tivesse olhado da janela para dentro, teria adivinhado o aconchego da intimidade pescando nas sombras, escondendo o fatal desígnio do mistério de ti.

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: Edward Hopper, "Summer Evening"

(Obrigada, Roberto)



 Escrito por Lídia de Reis às 13h35
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Biombo chinês

Você me viu? Atrás do biombo chinês, fazendo marionetes das sombras das mãos, dando nomes aos sonhos, escrevendo no ar. Ao menos um relance de figura negra na parede trincada, você viu? Andando pelo apartamento decorado de silêncios, sou toda desconfirmação de mim, do meu nome, do seu, do nome das coisas, como se, cansado de fugir dos pulsos, o sangue tivesse voltado frio e sem memória para essa minha pouca existência de corredores vazios. A cidade é assim. A imensa metrópole cinza das pessoas invisíveis. Todos os dias, nascem cem crianças em um único bairro distante da cidade. Invisibilidade como vocação. Invisibilidade como atavismo. Ninguém é visto no meio de milhares de nascimentos.

Contei para você uma cena que me acompanha há anos? Estava entrando nos subterrâneos do metrô, três degraus de pedra polida e um átrio revestido daquele mesmo chão liso e brilhante e frio. Virei-me ao ouvir barulho de cascos, sim, de cascos. Um cavalo branco desceu vacilantemente o degraus e tombou no meio do átrio. Ajoelhei ao lado dele, passei a mão em seu dorso. As pessoas apenas desviavam, sem ao menos diminuir a velocidade dos passos, e desciam as escada rolantes - até cobram-se duas moedas lá embaixo.

Agora me diga você: se ninguém viu um miserável, magro e doente Pegasus perdido das asas, do verde e do ar estabacar-se sem o menor fiapo de divindade, o que será de uma pequena mulher entre os prédios, encolhida atrás de um biombo que mantém presa à laca a pintura meticulosa de mil detalhes cotidianos? Ali atrás, oculto tantos vagos desejos que me tornei essa inquietação sem rosto.

Texto: Lílian Honda
Foto: São Paulo vista da pista de Congonhas,
Tuca Vieira/Folha Imagem



 Escrito por Lídia de Reis às 09h33
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Não tenho atualizado meu espacinho aqui ultimamente, mas fica o registro: este blog ficou entre os "blogs legais do público do Uol", o que muito me orgulha.



 Escrito por Lídia de Reis às 17h51
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Um diário inconstante de minha ternura pelas impossibilidades.

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