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Mariposa

No lado de fora, as coisas são simples. Dias e dias
enfileiram-se exibindo variados matizes de cinza. A beleza lá fora traveste-se
de dégradé e oculta-se nos detalhes. Beleza sutil e melancólica: a mendiga
lava os cabelos na torneira do jardim de uma casa. Beleza que não
se vê por inteiro: coloridas quinquilharias mesclam-se ao alarido da rua. Beleza
serena e imprevista: a pele perfeita e muito alva de uma senhora idosa no metrô.
Beleza prêt-à-porter: nas minhas mãos, a almofada de organza bordada com fios
dourados e vitrilhos. De onde estou, do meu jardim secreto, posso ver a
beleza drummondiana de flor no asfalto, que não chega a queimar os olhos.
Prefiro outra, tu sabes. A fatal. A de dentro. A que sobrevive por um fio,
tentando inutilmente traduzir a lava da dor antes que ela escolha o transbordar
sem palavras. Beleza tanto mais violenta quanto menos se vê, essa que explode
dentro dos limites de mim. Quero que saibas: morreu por excesso de luz a
mariposa cinza que escolheu uma concha translúcida para viver. A silhueta ainda
se mostra à noite, recortada no globo de vidro leitoso.
Texto: Lílian Honda Imagem: "Ofélia", de Redon (c.1900-1905)
Escrito por Lídia de Reis às 10h21
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Implosão
As palavras caladas seguram o desabrochar do tempo e entre pétalas
fechadas resguardam-se os sentimentos. Pequenas aranhas tecem silêncios e
sutilezas. Às vezes, um gozo e, num grito, uma flor distraída abre-se antes da
sazão. Paixões de asas vincadas ainda são esperança em seus casulos. No poço,
água límpida decanta restos de dor. Céu sempre azul, sem vento nem nuvens. No
meu jardim secreto, é tempo de dormência.
Texto: Lílian Honda Imagem: "O Mundo de Cristina", Andrew Wyewth
Escrito por Lídia de Reis às 10h20
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Saudades na pele

Há corpos de palavras, não o meu, matéria de excessiva rudeza e
densidade que persiste a despeito delas, suportando com alguma indulgência o
intrincado de pretextos, equívocos, razões e desrazões que mal revestem o
viver. No limite, a invocação da pele repassa a ancestral lição: "tu falas
saudades; eu mostro...". É quando o desejo faz da ausência a flor brutal
que recende a memória e nunca se deixa colher.
Texto: Lílian Honda
Escrito por Lídia de Reis às 10h18
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Memórias
Lembra-te das pedrinhas que atiravas à minha janela? O som e o súbito
acordar ecoam ainda na madrugada, sem se darem conta de que vivo apenas de
exilar memórias. Lembro do toque dos meus pés descalços nos degraus de madeira,
levando-me às cegas, descomposta, sonolenta e apressada a abri-te a porta.
Trazias vinho e violão, às vezes uma tela para mostrar. Eu acabava por adormecer
no sofá da sala, encolhida de frio e de afeto. Tu, que conheces tudo, esqueceste
de contar por que nunca nos beijamos.
Texto: Lílian
Honda Imagem: Gustave Caillebotte, "Young Man at His Window"(1875)
Escrito por Lídia de Reis às 10h17
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Rendição

Levantei de súbito quando me chamaste do sono. Acordei do
avesso. As armas ficaram por dentro, provas embaladas e etiquetadas da
inutilidade do resguardo da dor. Por fora, a pele suavizada pelo sonho e, em
algum canto, a prudência temporariamente suspensa pela sua voz. Meu nome na tua
boca me diz: a força está no vulnerável de ti.
Texto: Lílian Honda Imagem: Rossetti, "Vênus Verticordia"
Escrito por Lídia de Reis às 10h17
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Cantares de Perda por Hilda
Hilda se foi. Em meio à preocupação com as dezenas de cães e gatos vadios que sua generosidade acolheu na Casa do Sol, terá Hilda reparado na ironia de sua dívida eterna com a prefeitura ter chegado ao fim? Desde sempre, reclamava de não ter leitores, o que, em certa época, a fez dedicar-se à pornografia. Virou arte, não tinha jeito nem cura. O que estaria pensando do relançamento de todos os seus livros nos último anos?
II Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me. E eu te direi que o nosso tempo é agora. Esplêndida avidez, vasta ventura Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça Demasiado intensa. E de aspereza. E transitória se tu me repensas.
V Nós dois passamos. E os amigos E toda minha seiva, meu suplício De jamais te ver, teu desamor também Há de passar. Sou apenas poeta
E tu, lúcido, fazedor da palavra, Inconsentido, nítido
Nós dois passamos porque assim é sempre. É singular e raro este tempo inventivo Circundando a palavra. Trevo escuro
Desmemoriado, coincidido e ardente No meu tempo de vida tão maduro.
Hilda Hilst (Dez Chamamentos ao Amigo, in "Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão")
Escrito por Lídia de Reis às 19h57
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LXIII Tens a medida do imenso? Contas o infinito? E quantas gotas de sangue Pretendes Desta amorosa ferida De tão dilatada fome.
Tens a medida do sonho? Tens o número do Tempo? Como hei de saber do extenso De um ódio-amor que percorre Furioso Passadas dentro do vento?
Sabes ainda meu nome? Fome. De mim na tua vida.
Hilda Hilst (Cantares de Perda e Predileção, in "Cantares")
1. E o tempo tomou forma. Assim me soube Envolta em grande água do mar até a cintura E nada a não ser água e seu rumor Aos ouvidos chegava. E sou ainda Que um só gesto e sopro acrescentava Essa vastíssima matéria. E atenta Em consideração a mim, cobri-me de recuos. Eu, que de docilidades me fizera.
Antes avara desse tempo que resta. Se em muitos me perdi, uma que sou É argamassa e pedra. Guardo-te a ti. Em consideração a mim. Redescoberta.
Hilda Hilst (Memória, in "Exercícios")
"Agora será sempre o abismo, espio lá no fundo, o que há no fundo? Secura, tudo consumado. Nunca mais. (...) Para o meu corpo, um funeral, e para a VIDA GRANDE DO DE DENTRO, ESSA INTEIRA VIVA, o quê? Agda, é assim: ESSA INTEIRA VIVA não acompanha o corpo, essa é intacta, nada a corrompe, ESSA INTEIRA VIVA tem muitas fomes, busca, nunca se cansa, nunca envelhece, infiltra-se em tudo que borbulha, no parado também, no que parece tácito e ajustado, nos pomos, nas aguadas, no paludoso rico que o teu corpo não vê. ESSA INTEIRA VIVA é que vive esse amor, o corpo não, Agda. Isso é verdade?"
Hilda Hilst ( "Kadosh")
Escrito por Lídia de Reis às 12h04
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Enigma

Decifra-me, que deixo-me devorar gemendo de prazer enquanto
respiro a morte do amor na próxima esquina. Mas antes fala-me mansamente daquilo
que adivinhaste para que eu finalmente saiba quem se abandona no altar precário
do desejo.
Texto:
Lílian Honda Imagem: Klimt, "Music"
Escrito por Lídia de Reis às 19h14
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