ponto, afinal




3. Exercícios do Sentir
A Saudade

A saudade boicota a lição da perda. Estica a massa do pão ázimo, tortura o doloroso jejum de tua convivência e multiplica os peixes da ansiedade. A saudade é vinagre: talha o leite da ternura.
A saudade é grande demais para brincar de esconde-esconde. Deixa sempre à mostra a cauda da melancolia. A saudade é o exercício de sentir falta. Um exército de suspiros indisciplinados atirando cada um por si.

texto: Jorge Maranhão
imagem: A Carta, de Mary Cassat






 Escrito por Lídia de Reis às 17h51
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Lembrança

Só ela compreendia o som
dos meus silêncios. Temia
às vezes que o tempo hostil
fugisse enquanto conversávamos.
Depois disso esvaiu-se-me a memória
e vejo-me a falar
dela contigo, entre espirais de fumo
que anuviam a nossa comoção.
Esta é a parte de mim que encontro
mudada: o sentimento, em si informe,
neste agora que é apenas de saudade.

Eugenio Montale



 Escrito por Lídia de Reis às 00h17
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Encontro

Dezenas de cartas, milhares de palavras alivanhavadas com capricho. Ou não. Conversas por telefone, um avaliando a voz, a entonação e as intenções do outro. Troca de bilhetes no éter. Dois longos períodos de ausência. Muitas discussões e algumas brigas de "ficar-de-mal-pra-toda-vida" até o dia seguinte. Nunca haviam se visto quando ele a pegou no aeroporto e passou o dia mostrando tudo aquilo de que gostava na cidade. Houve uma longa conversa, que doeu um pouco. Riram também. Contaram coisas que só devem ser ditas olhando nos olhos. Nenhum beijo sequer, nenhuma grande demonstração de intimidade. Até que, à mesa do restaurante, como quem pede mais um café interrompendo um curto silêncio, ele disse: "Vamos para a cama?". E ela sorriu discretamente. Simples assim.


Texto:Lílian Honda
Foto: Doisneau, "Beijo II"



 Escrito por Lídia de Reis às 23h39
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Não resisto. Estou virando cleptomaníaca das letras. Mais um, "roubado", desta vez do blog No Arame. Não existem finais, um dia alguém me disse. Ah, como existem.

A Saudade

"Nas nossas cabeças, algures na outra margem, alguém chama por nós. E tudo se dissolve e tudo é como sempre foi, uma viagem interior em que tu, e os teus dias de vento, e as tuas coisas imaculadas, morrem todos os dias na memória descartável do nosso amor."

Alexandre Monteiro



 Escrito por Lídia de Reis às 20h47
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Colagem

O que não aconteceu me mata um pouco todos os dias. Mesmo sem crer, já rezei, ou talvez apenas recitasse um mantra, para que fosse de um golpe só, ainda que soubesse que há tempo para morrer pelas palavras. Cansa-me o fluxo desesperado das idéias e penso em lobotomia. As mãos cerram-me lábios e olhos, mas infelizmente não se desaprende. Dissecando cuidadosamente o emaranhado, noto com curiosidade quase científica que vivo em dois tempos paralelos: aquele que consigo inventariar em dias e horas que brotam sempre iguais, e o outro, fígado de prometeu, disco riscado que se repete sempre e sempre e sempre agora, sobrepondo-se a todo o resto. Um tempo parado em mim, colagem cruel de fragmentos recorrentes, em que cada camada deixa entrever partes da anterior, nunca o suficiente para o entendimento, sempre o bastante para a arqueologia da memória precária, das explicações descosturadas e das sombras. Se há perenidade, é assim, na tensão das coisas não vividas. E é nesse aprendizado do desamor que agarro a lição: não quero mais palavras calculadas e justificativas, porque um e outro, cálculo e razão, negam-me o sentimento que pensei adivinhar em ti. Não quero ouvir nem o ruído surdo de meu pulsar. Silêncio.

Texto: Lílian Honda


 Escrito por Lídia de Reis às 00h27
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Memórias são saudades de mim.



 Escrito por Lídia de Reis às 16h29
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Quando não sei o que dizer - o que acontece com freqüência-, colo aqui coisas que gostaria de ter escrito. Este vai com agradecimento à autora, dona do "Nocturno com Gatos", cujo link está ali ao lado.



Tudo está certo

Tudo está certo. O amor não mudará o mundo
nem a nós. O silêncio quando a música
se recusa tem a espessura
de todos os anos em que o tecemos
de esperanças ou nem isso,
pois tu sabes como eu sei
que no silêncio (ou na música) respondem
os ecos de um vento mudo
e do tempo passado às vezes
perdido. Mas tudo é vida.
Tudo está certo.
"Que importa o nome da primeira namorada?"
perguntou Bashô - "Nuvens de primavera."
Assim é o tempo. Assim somos nós.
Não estejas triste.

Soledade Santos



 Escrito por Lídia de Reis às 16h28
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Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector



 Escrito por Lídia de Reis às 16h27
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Game over

Retiro-me. Não há nada que me interesse no jogo. Não decorei as regras. Não tenho estratégias nem feeling. Não conheço oponente ou parceiro. Tenho sempre a impressão de que agito minha bandeirola com entusiasmo pouco convincente nos momentos errados. Sei escolher as cortinas certas, o melhor restaurante, a cor exata, um bom livro, as palavras adequadas numa conversa cordial, o gesto necessário ao gozo. É habilidade suficiente para continuar entremeando a mansidão dos dias às pequenas alegrias, como me deparar com um objeto de bom desenho, desses que se encaixam à perfeição na sala de estar e na vida. Não mais me interessa subjetividade que não seja a minha.

 Escrito por Lídia de Reis às 19h39
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Um diário inconstante de minha ternura pelas impossibilidades.

Todos os textos publicados neste blog são de autoria de Lilian Honda, exceto quando indicado o contrário (e, nesses casos, serão dados os devidos créditos ao autor).

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