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Fantasmas
Mortos de todos os tipos brincam comigo com a crueldade sorridente das crianças. Com o direito adquirido dos que, tendo deixado de existir, cobram caro por terem se mantido presas da memória. Com a certeza de que o silêncio lhes dá impunidade.
Escrito por Lídia de Reis às 17h58
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E por que haverias de querer...
E por que haverias de querer minha alma Na tua cama? Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas Obscenas, porque era assim que gostávamos. Mas não menti gozo prazer lascívia Nem omiti que a alma está além, buscando Aquele Outro. E te repito: por que haverias De querer minha alma na tua cama? Jubila-te da memória de coitos e de acertos. Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
Hilda Hilst
Escrito por Lídia de Reis às 17h57
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O Segredo
Há uma palavra que pertence a um reino que me deixa muda de horror. Não espantes o nosso mundo, não empurres com a palavra incauta o nosso barco para sempre ao mar. Temo que depois da palavra tocada fiquemos puros demais. Que faríamos de nossa vida pura? Deixa o céu à esperança apenas, com os dedos trêmulos cerro os teus lábios, não a digas. Há tanto tempo eu de medo a escondo que esqueci que a desconheço, e dela fiz o meu segredo mortal.
Clarice Lispector
Escrito por Lídia de Reis às 17h57
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O apartamento - 2
Há a Wassily, o armário de livros e a cama larga sempre branca. Sou capaz de antecipar a chegada de cada novo objeto, o lugar exato de cada um. Sei qual parede será um espanto em bordeaux de tom fechado. E a outra, sossego soturno de musgo na sombra da intimidade. Sei que os silêncios serão densos, pano de fundo para a decoração, e que não estou mais só do que já estive, ainda que a solidão comece a andar pelos meus passos no cotidiano. Há um caminho que se abre, dizem-me. O que sei é que a decisão me fez órfã da escolha, uma espécie de orfandade de mim e de tudo o que fui capaz de viver - e que foi pouco. Há as janelas com vista para a praça Lisboa, a vista que me fez querer estar aqui. As janelas que ainda não fui capaz de abrir.
Escrito por Lídia de Reis às 17h56
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O apartamento
Como preencher de mim o apartamento vazio de paredes claras se sou matéria insuficiente para a minha existência miúda? Sentada no chão, olho a ausência de móveis e tralhas que sinalizariam o trânsito dos meus dias. Nenhum vestígio sobre o que fazer com a liberdade instável aninhada sobre as pernas cruzadas. O medo é a substância densa que respiro, expulsando um resto de ar e tornando incômodo o menor gesto. Ainda assim, aspiro deliberada e lentamente e me ponho a desenhar afagos hesitantes para enganar o animal ao colo e a atmosfera viscosa. A sobrevivência exige mínimas ousadias que ninguém vê.
Escrito por Lídia de Reis às 17h56
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Lobo inevitável
Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.
Clarice Lispector
Escrito por Lídia de Reis às 17h55
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Rio
O Rio não é teu corpo nu de homem, que revela insuspeitas fragilidades e desperta ternura em mim. Só quando me tocas, o desejo que habita a cegueira de ti e do mundo cresce, enroscando-se nas entranhas para surgir como as mazelas da cidade que as cores explosivas da paisagem ocultam. Desce o morro numa fúria silenciosa, a raiva entalada na garganta e o olhar desafiando a cordialidade aparente dos dias. Tsunami de sombras e dores e misérias. Um corpo - qualquer corpo - não é mais que o desenho belo e frágil dos morros verdes fraturados pelo concreto.
Escrito por Lídia de Reis às 17h53
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The end
"Por medo da dor inevitável, você antecipa os finais, só isso". Foi a explicação diplomada que recebi para as minhas desistências. E assim vou vivendo somente de prólogos abortados e remates apressados. Talvez viver seja apenas isso. Quem sabe, finais exijam muito ensaio. Ou então é só urgência.
Escrito por Lídia de Reis às 17h53
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Lembrança
Algumas memórias apodrecem. Murcham, exalam mau cheiro e deixam correr um fio líqüido negro no chão do passado que cessou de acontecer ainda há pouco. Certas memórias se parecem com o retrato que foi envelhecendo e envilecendo para que o dono permanecesse jovem. Certas memórias não servem nem como adubo. Certas memórias não se dão nem a cães de rua. Certas memórias são sementes estéreis. Certas memórias são guimbas desprezadas por mendigos. Certas memórias são abortos tardios por má formação. Certas memórias são águas mortas. Certas memórias são fantasmas em decomposição permanente. Certas memórias são lágrimas secas. Certas memórias envergonham e apodrecidas e menores e cada vez mais feias, permanecem.
Escrito por Lídia de Reis às 17h51
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Cassino
Não há caminho certo. Existem apostas. Ao jogar os dados, torno-me irremediavelmente órfã da escolha.
Escrito por Lídia de Reis às 17h50
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Pequeno Diário da Palavra
Toda palavra tem um oco uma fenda uma avessa claridade de onde as formigas emigram.
Há gravetos, conchas vocabulares, acentos à paisana, vírgulas úmidas e bivalves.
Um vento antigo tange as crases desse poema, arrasta os pontos de exclamação pelos cabelos. Estende-os para secar o sol mais triste de seu nome.
O meio-dia a esmo bate a sua orelha na cancela.
Toda palavra tem sexo e sintaxe, um amarelo em luta com as folhas mortas do terreiro.
Alfabeto crivado de dízimos onde não se pode tagarelar sem doer um grão de arroz por sob a língua.
Palavra carece de pátria lugar de raiz e eleição.
Onde adensa sua espera, duas borboletas grifam a giz a paisagem.
Iacyr Anderson Freitas
Escrito por Lídia de Reis às 17h48
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É da desimportância das coisas que estão morrendo minhas palavras e o saldo dos dias.
Escrito por Lídia de Reis às 17h48
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Arpão
Eu queria saber escrever coisas terríveis. Palavras cruéis, cruas. Que lancetassem a serenidade. Que deixassem bordas queimadas na pele atravessada. Que fossem úlceras perfuradas. Ácido. Ovos que caem dos ninhos. Que provocassem abortos. Eu queria ser terremoto na vida de alguém. Só sei escrever mansamente. Nunca deixarei cicatrizes na memória.
Escrito por Lídia de Reis às 17h45
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Musa
Imagem: John Watherhouse, "Flora and the Zephyrs" Conto de Lílian Honda
O pequeno museu preservava a casa onde havia vivido o poeta e sua musa, D. Inês, um modesto sobrado sem personalidade arquitetônica, num bairro residencial tranqüilo e alto, de onde ainda hoje se avista o contorno cinza e compacto dos arranha-céus do centro da cidade.
Aos 19 anos, ela era a única guia de nenhum visitante. Nada a lamentar. Visitantes seriam intrusos naqueles cômodos de ostensiva intimidade acolhendo móveis pesados.
À falta de quem guiar, passava a maior parte do tempo na biblioteca do poeta, entre raridades e primeiras edições dos modernistas, abrigada na mansarda de paredes forradas de madeira, quadros, gravuras e lembranças, como a placa de uma rua de Paris e a foto de um túmulo do Père Lachaise. Ali havia um divã debaixo de uma das estreitas janelas, entre dois armários que ainda guardavam para o dono ausente roupas amareladas, suspensórios, gravatas e um chinelo xadrez. Na lateral do guarda-roupa, um rudimentar e falecido interfone ligava à cozinha, que fora transformada em escritório do museu. No centro, a mesa mineira de madeira grisalha, cheia de pequenas estatuetas de marfim e pedra, caixinhas, lente de aumento, bússola, ampulheta, óculos e quinquilharias variadas. Um antigo tinteiro russo esmaltado e a máquina de escrever mecânica portátil lembravam o ofício do dono, assim a poltrona reclinável com um dos braços em forma de prancheta, chocadeira dos versos. Tudo sobre um tapete persa puído, como devem ser os tapetes persas. Ele escrevia ali, a salvo do mundo, sob o olhar altivo de D. Inês, que tomava ares de Modigliani em bronze do alto do pedestal de pedra.
Desde que pisara na casa pela primeira vez, a jovem guia fora tomada pela sensação de que Rebeca, a mulher inesquecível, havia existido e ainda estava por ali, belíssima, pescoço longo, nariz afilado, sobrancelhas arqueadas, uma onipresente imagem que assombrava quase todas as paredes do sobrado, subindo pelas escadas estreitas. D. Inês fora retratada pelos amigos, que viriam a se tornar os maiores representantes do Modernismo. O retrato de ares cubistas era o preferido da garota, principalmente por ter sido pintado por um artista dado a abstrações. E talvez D. Inês não passasse de uma abstração em forma de mulher. Talvez todas as mulheres o fossem.
O diretor do museu a havia introduzido neste mundinho de culto às memórias. Aos 50 anos, Dr. Bernardo Soares considerava-se uma espécie de herdeiro intelectual do poeta. Apresentou todo o acervo à menina, com indisfarçável prazer, detalhadas explicações e muitas histórias saborosas. Sempre empertigado em seu terno (e ela se lembrava agora de tê-lo visto uma única vez em roupa esportiva, num dia de folga em que a visitou em seu plantão inútil no museu). Nunca um gesto brusco. Nunca uma frase menos que polida. Nunca um olhar mais que neutro.
Numa tarde lenta e quente de sábado, deu com um poema de sutil erotismo em sua gaveta, escrito com a letra exata do diretor, em um azul irregular de caneta-tinteiro, mais e menos aguado como as metáforas. Noutro dia, mais um. Mais outro. E mais outro. Silenciou, mas o desejo fareja-se. Nas tarefas da "cozinha", em meio a uma pesquisa nos documentos, um historiador afiou o humor e, arqueando exageradamente as sobrancelhas peludas, disparou: "O Soares é gay ou então vai pedir sua mão em casamento". Pânico. Os poemas pareciam fugir de seu esconderijo para fazerem arder o rosto da jovem.
A perturbação e o desejo não foram suficientes para que alguma palavra sobre o assunto fosse trocada entre guia e diretor. Ele não adivinhou, mas deveria tê-la beijado de súbito na "cozinha", na sala, na biblioteca, na mansarda, na escada, em qualquer lugar, porque um beijo teria o poder de desarmá-la completamente. As tropas bateriam em retirada, numa rendição total e desavergonhada. Tivesse adivinhado - e se soubesse beijar (in)decentemente - estaria automaticamente promovido de doutor Soares a Bernardo e nem precisaria ter queimado as pestanas rimando seu erotismo engavetado.
Mas o Soares fez alguma coisa a mais. Deu-lhe presentes, entre eles uma coleção encadernada de uma revista modernista, um exemplar raríssimo de uma coletânea de crônicas do poeta, de 1929, falando sobre uma cidade em que se via não o concreto, mas um gavião voando em direção ao bosque, ao longe, para investir contra sua presas, enquanto D. Inês certamente posava distraída e ligeiramente entediada para um amigo. O mais valioso dos presentes foi uma ordem. Anunciando uma exposição comemorativa, o diretor ignorou historiadores e doutores em letras da pequena equipe do museu e disse à jovem: "Escreva o livreto".
Muitos anos depois, ela ainda guarda o livreto, o livro de crônicas e as revistas, mas nenhum verso dos poemas dele. E continua esperando quem lhe adivinhe.
Escrito por Lídia de Reis às 17h44
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Sumiê
Ao contrário do sumiê, precisão em um traço, as memórias são qualquer coisa entre esboços perenes e aquarelas borradas.
Escrito por Lídia de Reis às 17h42
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Voz
Risada de papai noel. Tua voz lenta e grave põe-me a cabeça a rodar, à força de esses chiados e erres ronrronados. É desnatal e posso dar-te gemidos de presente. Queres?
Escrito por Lídia de Reis às 17h40
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Da utilidade do amor
''Utilidade do amor. os voluptuosos arranjam-se para realizar sem ele a exploração do prazer. atingem o delírio através de uma série de experiências sobre a mistura e a combinação dos corpos. só então se apercebem de que restam descobertas a serem feitas num hemisfério muito mais sombrio. dele temos necessidade para nos ensinar a dor''.
Marguerite Yourcenar
Escrito por Lídia de Reis às 17h40
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''Dissipa se o quiseres a minha vida débil que se queixa, como um apagador o traço efêmero dum quadro-negro. Espero retornar ao teu círculo, cumpra-se o meu desbaratado passar. A minha vinda era um testemunho de ordem que na viagem esqueci, juram fidelidade essas palavras a um fato impossível, e o ignoram. Mas sempre que logrei ouvir teu doce refluxo nas margens fui presa de um espanto como a quem sendo falto de memória voltasse a recordar a sua terra. Minha lição aprendi mais que em tuas glória manifesta, no arfar quase que insonoro de um desolado meio-dia dos teus; a ti humilde me rendo. Não sou mais que fagulha de um tirso. Bem sei: queimar, outro não é meu significado.''
Eugênio Montale
Escrito por Lídia de Reis às 17h39
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Desejo
Na livraria, em pé, equilibrando sacolas, bolsas e livros escolhidos ao acaso da leitura de um parágrafo, uma frase, duas ou três palavras de boa combinação. Olhando obsessivamente para os livros do alto, aqueles que não alcanço, e que de certeza serão os melhores, embora eu nem me dê ao trabalho de ler as lombadas. Antecipo o sufocamento, a falta de fôlego que algumas palavras me causam. Não leio os títulos nem autores, mas são aqueles que me escapam os que gostaria de ter. As palavras que me faltam são as que mais quero. Em pé, lágrimas que não escapam por pouco, hera apertando a garganta por dentro. Estão ali as palavras que se ausentam. No alto. A história que nunca lerei é a que mais me comove. Não me passa pela cabeça recorrer aos atendentes desatentos que conversam no balcão ali ao lado. Não saberia o que pedir. Nunca soube o que pedir, provavelmente porque não há palavras para o que quero. O que quis, quis assim, o do alto, o que só posso adivinhar ao longe. Se soubesse o nome, a palavra, então não seria aquilo. As lombadas enfileiram-se, cores, estampas, letras de diferentes famílias, em grupos de três, cinco, dois. A mais fina, a capa preta solitária, com letras que mal enxergo daqui, é aquela que me leva a desejar o livro. O cheiro do livro. Na página que seria aberta ao acaso, estaria lá o trecho que desataria as lágrimas, tão poucas palavras para dizer tanto. Ou nada. Comoção que salta de algumas letras enfileiradas. Não história de amor, não pai que encontra filha perdida. Nenhum fio condutor ou salto para a ficção. Está no alto, onde não alcanço. Quero o salto para o indizível. Quero que me adivinhem.
Escrito por Lídia de Reis às 00h15
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