ponto, afinal


Pudor

És belo e, de tão grande, não percebo-te capaz de delicadezas. 
Quando perdemo-nos em outros corpos, abaixas-te-me um tanto a saia para cobrir um pouco mais o meu. Amei-te, então, por alguns segundos.

Foto: Elena Vasilieva




 Escrito por Lílian Honda às 22h02
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Solipsismo

 

Dentro de mim,

um forasteiro usa meus velhos chinelos

e estranha os próprios pés.

 

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: David Hockney, "Pearblossom Highway" (1986)



 Escrito por Lílian Honda às 01h54
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Pessoas

Eu disse: não foram crimes, porque não há corpos. É verdade, eu não finjo; podes conferir por aquela janelinha alta: dá até para ver um pedaço do chumbo cinza das nuvens.

 

O que eu podia fazer, depois de ter visto cada um deles levar alguma coisa tua? Eu sempre soube: tu estavas deixando de existir porque eles viviam e escreviam. De ti, estavam a sobrar apenas fragmentos, fragmentos, fragmentos. Cacos.

 

Eu não podia mais assistir à pilhagem. Achei que tu existirias se eles não existissem mais. Por isso, inventei outra de mim: a hera venenosa, a planta-mulher dos beijos mortais, feita sob medida para o primeiro, Alberto, que encontrei deitado na erva. Olhou-me espantado e disse: "Então, a primavera é gente?". Assenti com um gesto e completei com meu verde sorriso: "E chorará pelo seu único amigo". "Isso quer dizer que as plantas têm idéias sobre o mundo?", perguntou-me, sorrindo. "Não", eu respondi, aproximando os meus lábios dos seus. "As flores, se sentissem, não eram flores, eram gente". Nem se notou nos meus lábios mais vermelhos o sangue que brotou da boca de Alberto.

 

Depois, marquei hora com o médico. A hora dele. Olímpica e distante, entrei no consultório. Como não há prazer sem um pequeno esforço, Ricardo rabiscava no receituário. Passou-me a folha arrancada ao bloco: "A flor que és, não a que dás, eu quero". Não houve socorro nem remédio para o pobre doutor quando meu beijo verde empalideceu sua pele morena e abriu caminho para o sonhado encontro com as musas.

 

Para o engenheiro inquieto, escolhi um exótico cenário. Cais, ópio e prostitutas, entre elas, eu. Bebi com Álvaro e os marinheiros nas mesas dos bares. Inventamos bandeiras piratas para navios que entravam na barra. Joguei seu monóculo no mar e guiei seus passos tortuosos por vielas quase irreais de estreiteza e podridão. Acabamos a madrugada no vão de uma escada escura - subi dois degraus para alcançar sua boca - e ele pensou que fosse absinto o verde veneno dos meus lábios. "Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas", foram as suas últimas palavras.

 

Da porta de saída, lanças-me um último olhar por detrás dos óculos redondos, onde ainda pude ler: "E eu, existo?".  Agora já não sei mais se eles não existiam ou se quem não existia eras tu.

 

Texto de Lílian Honda

Imagem: Klimt



 Escrito por Lílian Honda às 00h22
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Erva

Em outra (h)era, alguém escreveu este texto para mim. Achei por acaso, revirando velhas gavetas virtuais empoeiradas. Deu-me vontade de colar aqui, para, lembrando desse alguém e dessas palavras, eu esqueça um pouco de não ser à força de tanto querer.

 

 


 

querer escrever é des-sentir que se escreve porque se escreve. não se escreve para se ser poetactor. porque também não se chove para se ser chuva. a chuva é chuva. sente-se aquele pontapé cabrão que te faz rebolar nos penhascos, e quando chegas lá abaixo é com nítida vividez que sentes a cara a esborrachar-se numa rocha, todo o crânio se abala, os dentes estalam e motociclistas de dor aceleram pelos canais da tua fibra; sentes-te pior que a partícula no areal. e depois vai-se procurar alguma coisa que diga sim, e só os amigos que te comem dizem sim, o mar (quando te engole), o vento (quando diz atira-te!), e nada mais; mas vais a eles, pois nada mais te resta (as pessoas não são o resto), e é na beira desse gatilho que dizes, «não quero escrever», e repetes intimamente, e murmuras, desvias as partes de ti pelo que te rodeia, o penhasco, as ervas ali sarcasticamente simples, a própria terra tão apelativa, o charco, a gaivota que não tem nada de querubim e que desdenha do papel e da caneta; mas por mais que digas não, a chapada está na tua carne, como sémen está na carne, e acabas por escrever. às vezes é a raiva que escreve, às vezes é o esgotamento, o suplício de ser apenas um homem que no dia seguinte tem implacavelmente que acordar, mesmo que tenha lutado toda a noite pelo mesmo desígnio da erva, o dormir, esquecer-se de tudo, suspender-se e não escrever, não escrever, não escrever, que náusea chegar ao ponto de escrever! agarras-te à espada e desafias os teus melhores amigos, vibra-la diante da onda, ou diante da rajada, e só quando o músculo cede tomas noção do ridículo que é reclamar a estância de ser que nunca será alcançada por nenhum ser. até deus tem inveja da terra. a vulcânica terra que com o passar dos anos diz, «volta para mim», sem palavras porque o que vem aos olhos é o mutismo calado do tempo. e, por fim, notas que a terra é tempo. mas a terra não precisa de ser nada. como o tempo. só o que não é erva precisa de tempo para ser. e quando páras sucumbido, quando as palavras já te rasgaram todo e o texto fede essa falta de terra, essa falta de sono, tu anseias por uma canção, por um sussurro embalador que arrume a temulência e deixe despontar um respiro que seja autêntico. o esgravalher nunca é um convencimento. é antes penúria e parto. a carne cede, experimentas as mãos e esperas que elas voltem à magia de quando eras pequenino (como as ervas), os olhos ficam redondinhos e humildes, e a pele torna-se a extensa caminhada da tua existência (é nesse momento que pensas na mulher que quiseste amar), encolhes-te, o tórax torna-se o invólucro, pegas nos dedos dos pés como se fossem brinquedos e, por fim, sentes-te distante das decisões inteligentes. tal qual as ervas no penhasco. (até te conseguires rir da solidão). finalmente sentes alguma coisa, de indefinido, mas que vem do pleno interior, estás pobre, és sozinho, pronto para amar na simplicidade de só amar (alguém que seja erva).


Texto: Fernando
Imagem: Lucian Freud, "Interior in Paddington" (1951)



 Escrito por Lílian Honda às 16h53
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Relicário

 

 

O que sinto invento da trama das palavras e gestos que velam o castanho cerrado da íris.

 

Duas vezes deste-me teus olhos doces. Só por isso te amei.

 

De resto, o que tive foram rótulos de um veneno de ação corrosiva, teus ex-votos que fui consagrando à desvalida relíquia do amor.

 

 

 

 

 

 

 

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: John William Waterhouse,
"The Crystal Ball" (1902)



 Escrito por Lílian Honda às 00h48
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Maré de sizígia

Atenta ao cerimonial da lua
Faço minguar afetos e brandura.
Refluxo de mim, vazante d’alma:
Rasante na renunciada quadratura.



 Escrito por Lílian Honda às 19h40
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Notícias

Por ti, certa vez as palavras viraram corais, velames ao vento, sextantes e sereias.

Tantos anos e, de súbito, os jornais atravessam um oceano trazendo-te com os cabelos quase sem cor e mais magro (ou seria ilusão das lentes?). O nome e o rosto dizem sim, mas tu escapas. O concerto das memórias exige que eu invente para ti um desconcerto que te ampare, enquanto tropeças na gravidade solene, nas investigações e ─ merencória ironia ─ nas palavras.

Tão irremediavelmente prosaico.

Na geografia imprecisa dos pensamentos, meninas perdem-se na praia e as ondas devolvem rosas vermelhas desfeitas, ao som de uma suíte para cello de Bach.

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: Quint Buchholz, "Rack Picture" (1882)



 Escrito por Lílian Honda às 20h31
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Break-up


 

O esparadrapo arranca-se
feroz e subitamente.

Estilhaços congelados no breu 
─ estrelas perversas ─
suspensos sobre o tempo que corre.

[Não olhe agora.
Quando o ar frio de alguma manhã
invadir as janelas do corpo,
só restará a velha fotografia amarelada
de um espanto]

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: John Peto, "Rack Picture" (1882)



 Escrito por Lílian Honda às 07h22
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Foi um sonho:

um lápis azul abria caminho para fora de meu corpo, perfurando a carne entre as costelas. Foi surgindo de uma dor também azul, precisa e limpa, puxado por uma de minhas mãos ao mesmo tempo em que era empurrado pela outra.

Mãe e parteira de palavras
não-nascidas.

 

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: Mary Cassatt, "A Carta" (1890-91)



 Escrito por Lílian Honda às 20h46
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Fim


"Que final você quer escrever para esta história?"

Silêncio na sessão por incômodos trinta segundos. "Acho que o final é esse, acabou assim mesmo”, respondi, hesitante.

De lá para cá, a pergunta volta e volta e volta e fico sem saber qual é o final e qual seria a história.

Dias depois, leio que “as histórias do século XXI não têm fim”, e lá vou eu, brinquedo das palavras, de um lado para o outro, do fim da história para a história sem fim.

As histórias do século XXI são as mesmas histórias de qualquer século e hoje ou na civilização minóica ou na baixa idade média ou em qualquer idade as histórias sem fim também terminam por implosão, erosão, lassidão ou abandono.

Do fim da história para a história sem fim, vagueio do relativo conforto da precariedade das poucas certezas ao apreço pelo território das sombras, do inefável, dos presságios, das entrelinhas e das inquietações sem nome e sem razão.

Do ponto final às reticências. De um lado a outro, as histórias sem fim têm um remate, ainda que seja a mão suspendendo a pena a meio da palavra com a súbita chegada do silêncio.

O que ficou por dizer está extinto.


Texto: Lílian Honda
Imagem: Wayne Thiebaud, "Man Sitting - BackView" (1964)

 

 



 Escrito por Lílian Honda às 21h32
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Filigranas

 

 

 

 

 

 

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: J. Neumark,
"Couple 4"(2000)




Nunca entendeste essa impossibilidade de arrancar palavras daquilo que em mim necessita das sombras para crescer, embaraçando raízes às vísceras.

Tu podes pensar que tive medo de amar. Mais um engano. O meu amor é uma espécie de delicadeza que morre por excesso de luz e fúria. E o meu medo é o de não poder mais lapidar o mundo com as palavras para encerrá-lo nas filigranas da caixinha de prata da minha existência miúda.

Amores são precários hoje — e continuam bons e belos como bonecas de porcelana. Mas isso tu sabes melhor do que eu, tantos são os que jazem no aterro sanitário das tuas memórias. Eu só sei de minha escassa prataria, as velharias que insisto em polir ao longo dos meus dias.

A resposta — e o que importa a minha/tua verdade das palavras? — sempre acaba por transformar-se numa colheita única e estéril.




 Escrito por Lílian Honda às 18h46
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O lutador - II

Este aqui é antigo. Andei arrumando o blog e apaguei sem querer. Republico.
Há um mais recente antes deste.

 


Tenho agora o tempo exato que me cabe, depois de tomá-lo de volta no instante mesmo em que abri mão da juventude que emprestavas-me com a saliva.

O pano de fundo das minhas memórias de ti será sempre o escuro dos nós dos teus dedos, o nó cego do teu punho.

Não me coube mostrar-te, lutador: a palma é débil e mansa ao toque.

 

Texto: Lílian Honda
Imagem: Kunisaga, "Ichihara (no) Izumi Domaru" (1863)
Série: Magic scenes in Kabuki dramas by Toyokuni



 Escrito por Lílian Honda às 22h36
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Entrelinhas

queria escrever assim, des-sentindo o que escrevo. mas não des-sinto e nem escrevo e de tanto querer ser na escrita sutileza e fiapos e vestígios, estrangulo as palavras e pago a pena de ressentir sem escrever.

"você escreve muito 'limpinho'", disseram-me certa vez. tão limpo que não marca o papel. tão limpo que disfarça o lodo verde das palavras que se amontoam do lado de dentro, quando o avesso do papel vira lixeira da alma.
invejo quem rola pelo penhasco e se rasga e se sente de mal a pior e recolhe seus próprios pedaços e tem raiva e não dorme e procura um sim, e sim, afinal escreve, porque para esses a pena é outra, e termina quando se esgota a tinta.

"eu quero escrever" é meu mantra, repetido à exaustão até que torno a engolir palavras/sentimentos como se murmurasse "voltem para mim", para que o papel não se suje, para que eu não fique nua e desamparada, para que não se exponha de mim nada além da aridez dos gestos contidos e frases polidas que ocultam a agitação clandestina, a inquietação sem nome e sem razão, o parto às avessas.

não sei o que sinto, embora sobrem palavras para dizê-lo: precariedade do tempo suspenso como gatilho puxado, uma eternidade aguda colada ao outro tempo que corre; irmãos acorrentados numa rima pobre siamesa que se agarra à minha pele como unha-de-gato, falsa hera, falsa eu. estou só nas entrelinhas do que nunca escrevi.

 Imagem: Mark Ryden, "The Debutante" (1998)
Texto: Lílian Honda



 Escrito por Lílian Honda às 01h09
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Ontem à noite

Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o inverno.

Tinha varrido a casa, tinha limpado tudo como se fosse antes do meu funeral.

Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque.

Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais; e depois disse para comigo: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba.

E depois comecei a escrever...

Texto: Marguerite Duras
Imagem:  Philip Pearlstein,
"Lying on Rug" (1970)



 Escrito por Lílian Honda às 15h17
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Cores, nomes

Contigo usei palavras como quem queima fósforos. Sei que lembras da frase que tomei de empréstimo para ti: “a gramática nos impede de sentir a dor do outro”; e, se existe um deus guardião das palavras, há de ter-me perdoado o pequeno delito, porque nunca alguém conseguiu ser tão precisa na hora mais precoce, ainda que travestida de letras que não eram suas.

Nada nos une além de um punhado de palavras. Tu sabes e eu sei os nomes das cores da luz: violeta, azul, verde, amarelo, cor-de-laranja e vermelho. Mas um bretão ou um galês têm apenas glas para tudo o que há entre azul e verde. Outra gente tem apenas um nome para cada metade daquela paleta. Eis a síntese de tudo o quanto fomos capazes de perceber um do outro.

Eram vagalumes, não fósforos. E o que te dizem os vagalumes na noite que há entre nós? Aquilo que escrevi, o “bastardinho”, como tu o chamas e que guardas no papel amassado dentro do bolso do jeans, é teu. Só teus olhos o vêem. Nada de mim está ali porque tu mesmo o inventaste ao ler. Porque as minhas cores têm o nome das tuas, mas do espectro da luz mal percebemos a sombra.

Imagem: Gountei Sadahide, "Englishman sorting fabric" (1861).
Texto: Lílian Honda



 Escrito por Lílian Honda às 21h47
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