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Memória
Este corpo
– qualquer corpo – é âncora da voragem, draga do tempo.
Imagem: "Mulher no Espelho", Picasso (1932)
Escrito por Lílian Honda às 00h43
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Língua
É feito de palavra tudo o que não é carne E também a carne é palavra Carne, palavra densa moldada ao toque E o toque é palavra A parte que me toca é a palavra no moedor de carne que dá a palavra que toca ao outro E o outro é ele mesmo palavra Este poema foi publicado originalmente no blog que abri a convite do YuBliss e recentemente saiu na revista Filosofia, Ciência & Vida número 47, de junho de 2010, no Encarte do Professor, acompanhando matéria sobre filosofia da linguagem, de Ofélia Marcondes, reproduzido parcialmente abaixo:
Encontrei no blog Mal traçadas um poema de Lílian Honda que me fez pensar na questão da linguagem:
(...) Poderíamos dizer que esta dicotomia carne/palavra é apenas didática, pois pensamento e linguagem nos parecem uma única coisa quando pensamos que a linguagem organiza o pensamento numa relação dialética na qual a linguagem só se constitui por que há pensamento. A própria consciência é linguagem e nomeamos nossa existência para que possamos compartilhar significados.
No poema, “o outro é ele mesmo palavra” significa que só temos consciência de nossa existência nesta relação com o outro. Nós dizemos ao outro quem ele é e ele nos diz quem somos. Esta mesma discussão cabe quando propomos a reflexão sobre o sujeito da ação que somos: nos entendemos como sujeitos porque somos objeto de conhecimento do outro.
Quando Lílian Honda fala “É feito de palavra tudo o que não é carne/E também a carne é palavra” nos parece claro que nessa categoria “palavra” se encontra tudo que está no imaterial: sensações, percepções, memória, emoções, imaginação, vontade e que estão, ao mesmo tempo, encarnadas na existência do próprio homem, portanto na carne que, no verso seguinte, se justifica, pois carne é palavra, não só na junção das letrinhas c-a-r-n-e, mas na própria base do pensamento sobre a existência.
Refletindo sobre: “palavra densa moldada ao toque”, “a parte que me toca é a palavra no moedor de carne” e “a palavra que toca ao outro”, fazemos um esforço de compreensão sobre o trabalho que realizamos ao burilar as palavras na construção de um texto, assim como burilamos o pensamento na constituição de nossa própria existência. A palavra é moldada por aquele que a utiliza ao mesmo tempo em que é moldada por aquele que a interpreta. Esta interpretação é social porque partilhamos de um universo comum de significados. O outro é tocado pela palavra na medida em que nos constituímos socialmente, só somos sujeitos na relação com outros sujeitos.
A riqueza do uso do verbo tocar pela poeta nos permite refletir sobre o tocar como um fazer humano: “E o toque é palavra”, no sentido de que todas as nossas relações se dão no plano simbólico. O verbo tocar nos remete a algo físico, mas que é pensamento, portanto linguagem.
Todo o poema acaba trazendo uma reflexão sobre a própria arte de escrever um poema que tece, ao mesmo tempo, a existência do poeta. Carne e palavra se tornam expressão desta existência, deste ser poeta.
Para Wittgenstein, “a questão “o que é realmente uma palavra?” é análoga a “o que é uma figura de xadrez?”” Isto porque a palavra é elemento dos jogos de linguagem. Estes jogos são objetos de comparação para que possamos clarear as relações existentes entre palavra e significado. Esses jogos de linguagem nos permitem uma articulação intermediária de significados, pois não “temos uma visão panorâmica do uso de nossas palavras” , nossa visão panorâmica é “nossa forma de representação, o modo pelo qual vemos as coisas” . Usamos as palavras como forma de representação, sendo que o mais importante na palavra não é a própria palavra, mas a significação, que é social. A “palavra significa a explicação que dermos de sua significação” , ou seja, é a explicitação do uso que fazemos de tal palavra neste jogo de linguagem que realizamos no próprio convívio social.
Uma mesma palavra pronunciada ou escrita pode ter vários significados, por exemplo: manga. O que eu disse? Manga. Sem um contexto ou sem uma explicação do uso que faço da palavra manga, meu interlocutor pode não compreender a que me refiro: manga de camisa? Fruta? Esse uso da palavra manga deve ser explicitado no contexto de seu uso ou na explicação de seu uso. Portanto, não é a palavra em si mesma o que é mais importante, mas a significação social e explicitada do uso que dela fazemos. (...)
Escrito por Lílian Honda às 13h23
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Viva Piva
Recebi do escritor João Silvério Trevisan um e-mail pedindo ajuda para o tratamento de saúde do grande poeta Roberto Piva. Uma ajuda que é também um prazer: segue aí o convite para o Viva Piva - poesia e música no b_arco. Para doações à distância, seguem dos dados bancários do poeta: Itaú, Agência 0036 conta corrente: 20592-0 CPF 565 802 828-00 
Escrito por Lílian Honda às 13h33
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Novo blog
A convite do portal YuBliss, abri um novo blog por lá. Por enquanto, estou dando expediente em novo endereço:
Mal Traçadas no YuBliss
Escrito por Lílian Honda às 16h49
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Lavoro Per Grazia Ricevuta

A poesia não é o milagre da palavra; é o ex-voto. Imagem: Ex-voto da artista plástica italiana Zaelia Bishop
Escrito por Lílian Honda às 12h40
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Lançamento: "O Rei do Cheiro"
Meu querido mestre, João Silvério Trevisan, está lançando um novo romance. Sobre o livro, João me escreveu dizendo: "Rei do Cheiro é bem diferente do que já fiz. Aliás, é assim que gosto: começar minha literatura do começo, a cada novo livro. Mas está muito violento, tanto na abordagem temática quanto no desenvolvimento estilístico". João estará autografando o livro em 28 de agosto, sexta-feira, às 20h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (S. Paulo/SP).
Escrito por Lílian Honda às 12h27
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Lançamento: "Teresa, o Mito da Mulher Menina"
Meus caros Cecília França e Pedro Akim Botovchenco lançam hoje seu livro "Teresa, o mito da menina mulher". A sessão de autógrafos será na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Pompéia - Rua Turiassu, 2100, São Paulo (SP), às 19h.
Escrito por Lílian Honda às 13h24
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Oculto

Não importa a máscara: não falando de sexo, outra coisa não faço mais do que falar dele. Esta que vês com a face da cordialidade, me é tão distante quanto a puta que cobra a sua parte em algum ponto da trilha que vai da norma ao desejo. Nos atalhos que ligam umas de mim às outras, há o sexo dos corpos disponíveis, que se vive com limpidez e precisão. Mesmo devasso, é óbvio. E há o outro, esgueirando-se nas palavras, nas entrelinhas e nos silêncios. Tem a violência do obscuro.
Imagem: Kabuki (2003), de Hiroshi Watanabe
Escrito por Lílian Honda às 12h48
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Pudor

És belo e, de tão grande, não percebo-te capaz de delicadezas. Quando perdemo-nos em outros corpos, abaixas-te-me um tanto a saia para cobrir um pouco mais o meu. Amei-te, então, por alguns segundos. Foto: Elena Vasilieva
Escrito por Lílian Honda às 22h02
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Solipsismo Dentro de mim, um forasteiro usa meus velhos chinelos e estranha os próprios pés. Texto: Lílian Honda Imagem: David Hockney, "Pearblossom Highway" (1986)
Escrito por Lílian Honda às 01h54
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Relicário
O que sinto invento da trama das palavras e gestos que velam o castanho cerrado da íris. Duas vezes deste-me teus olhos doces. Só por isso te amei. De resto, o que tive foram rótulos de um veneno de ação corrosiva, teus ex-votos que fui consagrando à desvalida relíquia do amor. Texto: Lílian Honda Imagem: John William Waterhouse, "The Crystal Ball" (1902)
Escrito por Lílian Honda às 00h48
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Maré de sizígia

Atenta ao cerimonial da lua Faço minguar afetos e brandura. Refluxo de mim, vazante d’alma: Rasante na renunciada quadratura.
Escrito por Lílian Honda às 19h40
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Notícias
Por ti, certa vez as palavras viraram corais, velames ao vento, sextantes e sereias.
Tantos anos e, de súbito, jornais atravessam um oceano trazendo-te com os cabelos quase sem cor e mais magro (ou seria ilusão das lentes?). O nome e o rosto dizem sim, mas tu escapas. O concerto das memórias exige que eu invente para ti um desconcerto que te ampare, enquanto tropeças na gravidade solene, nas investigações e ─ merencória ironia ─ nas palavras.
Texto: Lílian Honda Imagem: Quint Buchholz, "Rack Picture" (1882)
Escrito por Lílian Honda às 20h31
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Break-up
O esparadrapo arranca-se feroz e subitamente.
Estilhaços congelados no breu ─ estrelas perversas ─ suspensos sobre o tempo que corre.
[Não olhe agora. Quando o ar frio de alguma manhã invadir as janelas do corpo, só restará a velha fotografia amarelada de um espanto] Texto: Lílian Honda Imagem: John Peto, "Rack Picture" (1882)
Escrito por Lílian Honda às 07h22
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Lápis
Foi um sonho:
um lápis azul abria caminho para fora de meu corpo, perfurando a carne entre as costelas. Foi surgindo de uma dor também azul, precisa e limpa, puxado por uma de minhas mãos ao mesmo tempo em que era empurrado pela outra. Mãe e parteira de palavras não-nascidas. Texto: Lílian Honda Imagem: Mary Cassatt, "A Carta" (1890-91) Nota posterior: ai, como tem gente previsível no mundo. Assim que aprovei o terceiro - e gentil - comentário, a autora veio correndo pedir add no perfil do Orkut. Só faltou dizer "não fui eu, não fui eu". Basta falar no diabo, que ele abana o rabo. E se apagar, Cristina, eu publico de novo, porque tenho a pérola gravada.
Escrito por Lílian Honda às 20h46
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